É quando perdemos a confiança na humanidade e não mais identificamos humanidade essencial no ser humano; quando a única referência que temos de lealdade é aquela com a qual somos gratuitamente presenteados pelo nosso cão ( lealdade por sinal, indiscutível); quando as palavras, inclusive e/ou principalmente, as declarações de amor tem prazo de validade; quando percebemos a liquidez do amor em cada tentativa de relacionamento; quando tudo que há de relevante na alteridade é o consumível, o possuível, desfrutável... é nesse momento em que o céu parece desabar sobre nossas cabeças.
E quão bom seria se o céu fosse àquele azul, o qual contemplamos, quando não há nada mais importante para fazer. Mas não é, é outro. É um outro céu, que existe em mim. Tão grande, tão infinito e desconhecido como o que está sobre nossas cabeças. É o meu céu particular, uma imensidão inquisidora.
Por um momento achei (e quase enlouqueci por esse “achar”) que apenas eu o possuísse. Que apenas eu estava totalmente amedrontada por perceber o desabar iminente do meu céu. (Céu, no qual, por muitas vezes eu me deliciei em vôos panorâmicos, que me faziam apreciar as belezas das virtudes humanas em total harmonia, ou em vôos rasantes que me alimentavam a alma, tamanha a energia dos sentimentos que de tão perto eu os vivia ). E que ninguém mais se importava com ele, ou não o tinham.
Sugestionavelmente achei que tudo era apenas uma questão de imaturidade. Infantilidade à flor da pele. E que os adultos eram mesmo assim: duros, frios, desleais, ambiciosos, arrogantes, insensíveis, pouco éticos etc, etc.
Mas foi apenas sugestão. Não tenho talento para sugestão, não me considero uma pessoa sugestionável. Mas é evidente o gigantesco talento de muitas pessoas para a manipulação. A mais crua, dissimulada e desonesta, manipulação.
Recentemente, numa conversa informal, fui chamada de inocente. O que me remeteu automaticamente à pensamentos antigos sobre a natureza do ser humano. Pus-me a pensar com meus botões, um tanto desalentada e desiludida. Pois aceitar que o problema era o fato de eu ser “inocente”, por estar decepcionada com as pessoas, era o mesmo que corroborar a natureza nefasta da humanidade.
Mas a conversa prosseguiu e meu interlocutor, inicialmente tímido e até um pouco retraído, permitiu-se relaxar aos poucos e eu acabei por perceber o que claramente estava sendo oculto atrás da timidez e também atrás das palavras que tentavam me abrir os olhos para o tal mundo cruel. Mundo cruel aliás, que eu, naquele momento, sentia seus efeitos negativos nas entranhas, mas relutava em acreditar que ele seria único e intransponível.
Com o passar das horas, a conversa que já havia derretido as incertezas iniciais, passou a ficar mais espontânea, mais livre, mais aberta e mais bela. E mesmo sem saber as impressões do meu interlocutor sobre essas horas de bate papo, eu já me encontrava totalmente modificada. Estava cheia de um entusiasmo contagiante, alegre, feliz, tranqüila. Sentia-me cheia de esperanças novamente. Mesmo sem perceber, eu estava novamente crendo na vida, na felicidade e sobretudo nas pessoas. Algo realmente mágico aconteceu.
No início daquela noite, fui pra casa muito feliz. Encantadoramente feliz. Espiritualmente feliz. Sim, era algo que ultrapassava a razoabilidade do palpável, do mensurável. Era algo que emudecia meus conflitos, meus desconfortos, e toda minha descrença no ser humano.
Aquela pessoa mudou a minha vida ou pelo menos, minha forma de olhá-la, de encará-la, de vivenciá-la e saboreá-la.
Usando a racionalidade costumeira, tentei analisar o que aconteceu. Percebi muitas coisas importantes, porém uma das mais importantes que percebi foi que, apenas consegui sentir todas as energias que vibravam, no momento em que me permiti não analisar e sim sentir. Bem aquela famosa frase de Saint Exúpery: “ Só se enxerga verdadeiramente com os olhos do coração”.
Outra coisa que consegui extrair dessa afortunada conversa, foi que sim, há esperanças porque no mundo há pessoas lindas, honestas, amorosas e altruístas, que valorizam o ser humano e sua essência. Pessoas que apenas sendo elas mesmas, conseguem extrair e exteriorizar a beleza do outro.
Sim, há esperanças! E agora sei que vale apenas sonhar com um céu resplendorosamente azul pairando sobre as cabeças de todos. E nesse céu, há um sol aquecendo e iluminando cada alma vivente, na intenção de que cada uma passe a vibrar as mesmas energias dividas que pude entrar em contato naquele dia.
Respledorosamente.
ResponderExcluirGostei dessa palabvra.
Estou procurando esperança, acho que meus olhos estão embasados para o mundo.
Obrigada por mostrar que ela existe.
MARAVILHOSAMENTE PERFEITO SEU TEXTO!! TUDO QUE VC ESCREVE, SENTE-SE SUA ALMA, SUA EMOÇÃO, SEU VIBRAR NAS CORDAS SECRETAS DO CORAÇÃO...BAUMAN LHE INSPIROU NO SEU BELO LIVRO...AMOR LÍQUIDO... ALIQUIDEZ DAS RELAÇÕES HUMANAS NA SOCIEDADE PÓS-MODERNA EM QUE VIVEMOS..BEIJOSS
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