Estive pensando sobre o quanto de nós mesmos, é produto puramente construído pelas exigências e força coerciva de nossa sociedade.
Qual será a parcela de verdade, verdadeiramente nossa, existente na verdade em que vivemos? Será que escolhemos nossa profissão por aptidão, dom, paixão, ou por ser àquela a qual me renderá mais rendimento financeiro e conforto futuro, ou ainda, àquela a qual está tradicionalmente implantada no seio familiar e/ou que me possibilitará gozar de um certo status?
Será que o estilo musical de minha preferência alimenta a minha alma e me enche de vida, ou apenas me faz sacudir esqueleto e esquecer do vazio que toma conta do meu ser, todas as vezes em que o silêncio fere meus tímpanos, com minhas verdades negadas ou mentiras às quais preciso enormemente acreditar?
Será que o deus no qual cremos é o mesmo que habita nosso íntimo mais profundo ou tal crença é apenas o eco dos ensinamentos amedrontadores que nos faziam ficar quietos, obedecer e não mentir, para não irmos para o inferno, sobreviver ao dia do juízo ou para não “deixarmos triste” o criador?
Será que a comida japonesa é ruim realmente ou apenas fomos ensinados que tudo precisa ser cozido e de cara renegamos tudo que for cru, conseqüentemente entronchando a cara para qualquer lâmina de sushi ou sashimi?
A questão é: quanto estamos dispostos a enveredar por novos caminhos, perdendo-nos por novos becos, guetos e vielas; experimentando novos sabores, mais doces, os mais picantes, os mais exóticos; conhecendo outras crenças, outros ritos, as diversas formas de cultuar a divindade, formas de manifestar a grandiosidade da fé; aprendermos novos ritmos, dançando uma valsa, um tango ou um xaxado, escutando Bach, Jobim ou Preta Gil, uma orquestra sinfônica, um reague ou qualquer ritmo, sabor, paisagem, sensação, que nos remova do cômodo estado do “ domínio”.
Acredito, (e esta é uma nova forma de crença que ainda estou na superfície) que a melhor forma de descobrir o novo é perdendo-se. Assim como nas fases do aprendizado, a confusão ( ou seja, quando parece estar mais perdidos) é o sinal de que estamos aprendendo. Quando nos perdemos, somos obrigados a fuçar, andar pelo desconhecido, prestar mais atenção e é ai que um verdadeiro mundo novo se materializa na nossa frente.
Mas não fomos acostumados a isso. Não fomos treinados para perceber as várias nuances do mesmo. Fomos doutrinados a seguir um caminho apenas e seguimos e muitas vezes sequer nos damos conta dos outros caminhos ou se damos conta de sua existência, é para taxá-lo de qualquer coisa que represente sua inferioridade diante das nossas escolhas.
Isso tudo representa nossa pequinês diante da vida. Representa a única e pequena janela pela qual nos debruçamos para olhar o mundo. E o nosso mundo é do tamanho de tal janela.
O que nos faz realmente humanos é a capacidade de pensar, então, pensamos nos problemas, criamos problemas, criamos distâncias, separações, intrigas, pensamos em como manter o poder, os privilégios. Criamos regras para nos diferenciarmos e nos destacarmos da “grande massa”, burra, ignorante, desqualificada. Construímos grades de afetação para não nos misturarmos com toda sorte de gente desprivilegiada.
O que nos torna humanos são nossos sentimentos, nossas paixões e nós canalizamos tais paixões e as extravasamos nas agressões, indiferenças, humilhações, violências, discriminações, preconceitos, intolerâncias, rispidez, arrogâncias.
E eu, ainda que buscando o novo, lembro-me de todo o velho de sempre, que está tão presente e que é tão cultuado. Ainda!
Mas, penso eu, será que o velho, não é apenas o comum, o conhecido? A única forma apresentável de se chegar a algum lugar? Essas tendências à injustiça, desavença, violência, a arrogância... será que não é a falta de amplitude no olhar?
Por que não tentar o novo? Experimentar!
Por que não olhar para dentro de si e ser gentil consigo mesmo. Fazer um mimo, um carinho, um afago. Olhar dentro dos próprio olhos, diante do espelho até enxergar a imensidão do mar, a infinitude do universo, as misturas e danças das cores no céu ao pôr do sol. E quando enxergar essa dimensão, sorrir para si mesmo e partir para o mundo externo, ciente da nossa transitoriedade nesse mundo. E quem sabe, gastar um pouco da nossa razão e sensibilidade para tentar, por que não, poetizar o grande paradoxo da nossa existência: nossa pequinês diante do desconhecido universo e nossa grandiosidade se considerarmos a complexidade do nosso mais profundo, belo e igualmente desconhecido SER.