quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Noite em claro

   Com algumas noites em claro nas costas, aprendi que em sua maioria, elas são improdutivas, desgastantes, irritantes e absolutamente maléficas para o corpo, mente, alma e coração.
   A única questão, é que quem sofre desse mal não tem muita escolha. E sabe que o rolar interminavelmente na cama, inventar novas formas de se comprimir e se esticar, até desforrá-la por completo, derrubar o travesseiro e ser obrigado a levantar para arrumar tudo de novo, pode não ser o caminho escolhido, mas é o único e sem direito à inércia. 
   Porém, essa noite foi um pouco diferente. Me obriguei a não rolar e a não tentar ( sabendo que é em vão ) dormir. Essa noite noite me pus a pensar, a lembrar de algumas aulas sobre a importância da respiração  e me obriguei a prestar atenção na minha. 
   Percebi que quase não estava respirando. Ela estava curtinha, rápida, fraca. O peso absurdo de algo enorme bloqueava sua passagem bem no meu peito. Era algo enorme, que me sufocava, como se um  bicho-papão estivesse sentado em cima de mim. Era angustiante. Minha face e a parte externa dos meus braços pareciam queimar, como se exigissem oxigênio de mim, como se gritassem e pedissem socorro. 
   Eu nunca fui uma pessoa complacente, nunca soube lidar com a resignação, nunca fui boa amiga da covardia e nunca deixei de oferecer resistência aos medos, embora há alguns meses, tenha andado de nhênhênhê com tudo isso.
    Resolvi então enfrentar o monstro. E para isso, me utilizei de conhecimentos estratégicos aprendido com Sun Tzu: a melhor forma de enfrentar o inimigo, é conhecê-lo. 
    Qual era o inimigo então? 
   Pensar no inimigo, não foi algo que melhorou a minha respiração. Muito pelo contrário. Ela começou a faltar ainda mais. Mas eu não sou de desistir (quando me disponho a algo). 
   Quem estava me apertando, comprimindo meu peito, me maltratando, me sufocando? Quem era meu algoz das últimas noites intermináveis?
     Passei a fazer muita força para respirar. Mas não de qualquer jeito. Nos momentos de desespero é preciso utilizar técnicas e eu as conhecia. Puxava o ar o mais forte que podia, até ele preencher meus pulmões e distender minha barriga e depois prender todo esse ar pelo instante de contar até dez e soltá-lo. Mais uma vez, não de qualquer forma. Tinha que ter técnica. Tive que soltá-lo até a última miligrama, esvaziando por completo, barriga e pulmões. 
     Fiz isso várias vezes. Até doer na garganta. Também pudera, foi um exercício e tanto. 
   Enquanto respirava, trabalhava a mente. Continuava a me perguntar quem era o "algoz da vez"? E aos poucos, assim como a respiração que começava a fluir mais normalmente, as situações foram se esclarecendo na minha cabeça. 
    Percebi que não havia algoz nenhum. E se eu quisesse assim pensar, esse algoz seria eu mesma e as minhas escolhas de vida. Mas prefiro não pensar assim, não me parece coerente, visto que minhas escolhas têm bases amorosas, divinas e não podem ser comparadas a algozes.
     A respiração, assim como diz o budismo, ajuda a acalmar, clarear e libertar a mente. E não é que eles estão certos, mesmo!!
     Eu estava com o foco deslocado, excluindo a minha responsabilidade  e esperando demais das pessoas. Esperando até coisas que elas não podem me dar.
    Eu estava tratando de forma irresponsável e cruel o amor que mora em mim. Culpabilizando-o por minhas frustrações e por minhas ansiedades, como se ele (o amor), pelo simples fato de existir, já fosse suficiente para as grandes transformações.
    Quer dizer, ele o é. Só que não do jeito que minha ignorância, pequinês  e materialidade deseja. O amor é divino. Sendo ele divino, não cabe a mim conhecer seus desígnios. Mas cabe a mim, crer!
   
    Bom, depois disso tudo, eu consegui adormecer. Acordei cedinho. Não de bom humor (por sinal, mau humor me era tão raro), mas diferente e melhor. Não posso ter a ilusão que outras noites insones não virão, seria utopia de minha parte, mas agora sei que há como, ao menos, tirar bom proveito delas.
   
     

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