Por um segundo apenas, sente um baque. Um estrondo surdo na boca do estômago, lhe cala e comprime o peito, roubando-lhe o ar. Emudece.
Um suspiro forte e entrecortado, como os que vencem os choros contidos, lhe invade o peito e lhe recobra a sensação de vida, sem que a tenha perdido.
A sombra, por sua vez, em sua total perversidade, percebendo a surpresa e fragilidade do amor, destila seu veneno:
- Assustei-o?
O amor, recobrado do susto, infla o peito confiante e responde com sua costumeira amabilidade e sorriso fácil.
- Eu estava distraído e não percebi sua presença. - Fala o amor, enquanto retoma a passas pequenos e calmos, o caminho em que seguia antes de ser surpreendido pela sombra.
- Sim, sim... - Fala a sombra, seguindo-o. - Você não me percebeu. Nunca me notou.
O amor achou estranho a palavra nunca. Conhecia-a. Mas na eternidade de sua alma, não a compreendia.
- Nunca? - Perguntou confuso
- Nunca. Em nenhum momento antes deste que agora acontece.
O amor parou e voltou-se para a sombra com mais atenção. Percebeu que seus olhos não assimilavam sua forma completamente, mas nada falou sobre isso. E refletiu em voz alta, como a pedir uma explicação:
- Antes?
E a sombra divertiu-se e sorrindo-lhe maleficamente, disse:
- É meu rapaz, você não nega que é novo por aqui. Quase um nascituro de tão imaturo. Tão frágil, tão pequeno.
- Eu não sou frágil, nem pequeno. Talvez você não esteja a me perceber corretamente. Eu sou forte, robusto, belo e imortal.
Retrucou o amor, para o deleite escancarado da sombra, que agora gargalhava-lhe às fuças.
- Meu jovem rapaz, sua inocência de fato alegraria meu coração, se eu o possuísse. Mas como eu não tenho, é a sua credulidade e prepotência, quem me faz rir. - Falava a sombra ao amor, enquanto o envolvia em sua névoa cinza. - E o que é ainda melhor, a sua cegueira quem me faz crescer. E quanto mais eu cresço, menor você fica. E quanto menor, mais escondido, imperceptível....
-Chega! - Gritou o amor resoluto. Temeroso por não mais perceber a nitidez das cores e dos brilhos que estavam diante de seus olhos minutos atrás - Não sei o que você quer, mas eu ordeno que volte de onde você veio!
E mais uma vez, a sombra gargalhou. Agora com mais força e mais vontade, enquanto percebia o desconforto e a incerteza tomar o amor em seu cerne.
- Você realmente me diverte, meu jovem! Você quer que eu volte para onde eu vim? - E gargalhou mais um pouco, antes de completar. - Eu não posso separar-me de você. Fui criada para te acompanhar até os últimos dias de tua vida. Aliás, minha missão é exatamente diminuir-lhe os dias dessa sua vida inútil.
- Você é ardilosa sombra! - disse o amor, fazendo uso de sua razão - Fui alertado sobre possíveis forças destruidoras, que vagueiam aleatoriamente, a tentar deturpar o meu verdadeiro significado e aniquilar o poder, o qual detenho. Mas não perca o seu tempo comigo. - E apontando para o alto, em várias direções, continuou - Veja, os feixes de luz já lhe perfuram a extensão, estais sendo vencida, sombra!
A sombra movimentou-se mais uma vez, circundando-o várias vezes até integrar-se em uma forma mais perceptível, de frente para o amor e passou a falar-lhe, em desafio:
- Você é forte, de fato amor. Mas percebo que a sua ignorância está a salvar-lhe a vida. Por isso, hei de fazer-me um favor, esclarecendo-lhe o teor de sua criação neste mundo: foste criado em um tempo sem tempo. Existes há tanto tempo que já nem sei. Mas eu sei que renasceste aqui junto a mim e eu hei de seguir-te onde fores. Não mais me mostrarei a ti. Mas estarei presente entre ti e os raios de sol, de onde tiras força, energia e poder. Agora me dizes: como achas que sobreviverás por muito tempo sem sol?
Ah, és um natimorto, amor! Eis o que tu és, um natimorto!!
Ah, és um natimorto, amor! Eis o que tu és, um natimorto!!
E gargalhando asquerosamente, passou a movimentar-se com violência. Um vento surgiu e as névoas cinzas se dissiparam como mágica.
O amor calou-se cabisbaixo, quieto a ponderar. Tinha sofrido outro golpe surdo no estômago. Olhou em volta e contemplou os raios coloridos de luz que novamente se faziam presente. Olhou com mais atenção. Não tinha certeza se estavam nítidos. E olhou novamente. E novamente.
Foi quando percebeu. A sombra havia lhe roubado algo de fundamental importância: a certeza.
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